Do maruim ao Aedes: como mudanças ambientais favorecem novas epidemias no Brasil
15/04/2026
(Foto: Reprodução) Do maruim ao Aedes: mudanças ambientais favorecem novas epidemias no Brasil
Uma combinação de fatores ambientais — que inclui o aquecimento global, o desmatamento e transformações profundas no uso da terra — está alterando o mapa das doenças transmitidas por mosquitos no Brasil.
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Cientistas alertam que as mudanças no clima e na paisagem favorecem a expansão de vetores como o Aedes aegypti, responsável pela dengue, e do maruim Culicoides paraensis, principal transmissor da febre do Oropouche.
O avanço desses insetos não ocorre de forma isolada. Para pesquisadores da área de saúde pública, a proliferação dessas doenças funciona como um indicador direto de desequilíbrios ambientais que se intensificaram nas últimas décadas.
Mosquito Culicoides paraensis (conhecido como maruim ou mosquito-pólvora)
Dive/Divulgação
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O mosquito da dengue e o efeito do aquecimento
O mosquito Aedes aegypti tem encontrado condições cada vez mais favoráveis em um planeta mais quente. A biologia do inseto responde rapidamente às variações de temperatura. De acordo com um artigo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, o aumento de apenas dois graus pode acelerar drasticamente o desenvolvimento do vetor: a 25°C, o ciclo de ovo a adulto leva 8,86 dias; a 27°C, esse tempo cai para 7,30 dias.
Com ciclos mais curtos, a população cresce com maior velocidade. Modelos climáticos publicados na PLOS Neglected Tropical Diseases indicam que, sob cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, a densidade do Aedes aegypti pode aumentar em até 92% no Sudeste brasileiro até o ano de 2080.
Dengue é transmitida principalmente pela picada do mosquito Aedes aegypti
Fabio Rodrigues/g1
Para mitigar esse risco, cientistas têm testado estratégias inovadoras, como o monitoramento de criadouros com drones e a liberação de mosquitos com a bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade do inseto de transmitir vírus.
O avanço do maruim e o manejo agrícola
Fora dos centros urbanos, o maruim Culicoides paraensis, conhecido como mosquito-pólvora, preocupa especialistas por ser o principal transmissor da febre do Oropouche.
Ao contrário do mosquito da dengue, ele deposita seus ovos em ambientes úmidos e ricos em matéria orgânica, como solos encharcados e resíduos vegetais.
Mosquito maruim, transmissor da Febre do Oropouche
Reprodução/TV Gazeta
A relação entre o manejo agrícola e o "boom" desses insetos é evidente em regiões como o Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Em entrevista ao portal g1, o pesquisador Caio Cezar Dias Corrêa, doutor em zoologia, explicou que o cultivo de bananas é um fator central quando o manejo é inadequado.
"O processo de corte do tronco após a colheita deixa exposta a parte que entrará em decomposição, sendo o local perfeito para a criação das larvas", destacou.
Segundo ele, a bananeira não é a culpada, mas sim a ausência de um manejo correto após a colheita.
Desmatamento e o "transbordamento viral"
A febre do Oropouche e a febre do Mayaro, historicamente restritas à Amazônia, estão ampliando sua área de ocorrência. Análises geoespaciais publicadas nos Cadernos de Saúde Pública (Fiocruz) mostram uma sobreposição clara entre as áreas de maior incidência dessas doenças e as regiões intensamente desmatadas.
Desmatamento feito para criar área de pasto
Divulgação
A perda de cobertura florestal altera os habitats naturais, provocando o chamado "transbordamento viral" (spillover): patógenos que antes circulavam apenas em ambientes silvestres passam a infectar populações humanas com maior frequência.
Atualmente, o vírus do Oropouche já foi identificado em estados fora da Amazônia, como o Espírito Santo, indicando uma adaptação do ciclo de transmissão a novos territórios.
O papel do equilíbrio ecológico
Embora o controle direto seja necessário, pesquisadores enfatizam que o combate às doenças transmitidas por mosquitos exige uma abordagem integrada que preserve o funcionamento dos ecossistemas.
Vacina contra a dengue
Paulo Oliveira/TV TEM
Em ambientes naturais equilibrados, diversos organismos — como peixes, aves, anfíbios e insetos predadores — atuam na regulação natural dessas populações.
No fim das contas, o aumento dessas doenças é um alerta ecológico: quando o ambiente se transforma rapidamente, os microrganismos e os insetos que os transportam encontram novas oportunidades para se espalhar, desafiando a saúde pública e a conservação ambiental.
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